“O Ventre da Vida” na estação Clínicas do Metrô

Clinicas _ obra de Denise Milan e Ary Perez _b_ credito Nario Barbosa

Obra foi feita em um buraco na parede

 

A estação Clínicas do Metrô de São Paulo (SP) conta com a instalação “O Ventre da Vida”, da paulistana Denise Milan (1954) e do goiano Ary Perez (1954), obra de 1993 com 1,50m de diâmetro, localizada no corredor de acesso ao Hospital das Clínicas. Dentro de um buraco na parede, tampado com vidro e iluminado, é possível ver brilhantes pedras (cristais de quartzo) de vários tamanhos. A obra é um desdobramento de uma instalação exibida pela dupla na 21ª Bienal de São Paulo (1991), chamada “Gruta de Maquiné”, nome inspirado em um fragmento do poema homônimo de Guimarães Rosa (1908-1967): “A gruta de Ali-Babá ainda existe, / graças a Deus ainda existia, / quando eu disse: / – Abre-te, Sésamo! … / na fralda da serra, / e fui entrando (…)”.

“A obra fica em um local de concentração de unidades hospitalares, o IML, faculdade de medicina e cemitérios. Nesse corredor da estação circulam pessoas com ou em contato com doenças. A dor está presente e ativa. Como amenizá-la? Abrir um buraco na parede sugere uma abertura em nossas resistências, barreiras e estágios de uma consciência que pode nos oferecer outro sentido, não tangível, cuja orientação pode seguir uma nova ordem, uma ordem cristalina. Nos reenvia à interiorização. A profundeza da Terra é a metáfora da profundeza do ser”, explicaram Denise e Ary por email.

“Através do buraco é como se interrompêssemos o tempo, uma brecha no espaço da Terra. As camadas subterrâneas soltam um grito de vitalidade e também de acusação de todos os momentos em que a vida é morta e o homem fica alienado de si mesmo. O cristal aparece como esse símbolo de uma expressão vital, a expressão criativa humana. O buraco na parede oferece uma nova direção ao olhar, um olhar que se volta para dentro. A obra surgiu como uma herança simbólica que deixamos para Helena, nossa filha, que nasceu e morreu com uma doença que não foi diagnosticada”, complementaram.

A arte pública está entre os interesses de Denise e Ary. Em parceria, eles criaram trabalhos do gênero em São Paulo, como “Drusa” (Vale do Anhangabaú) e “Sectiones Mundi” (Museu de Arte Moderna), e também na Holanda e nos Estados Unidos. “O papel do artista antigamente era estar presente na vida das pessoas, nas casas e na cidade. Esse isolamento recente somente nas casas, galerias e museus é trágico. A arte pública é o grande palco do artista plástico e o Metrô, lugar de grande concentração de pessoas, torna-se espaço e oportunidade privilegiada”, afirmaram.

“O Ventre da Vida” foi restaurado em meados do ano passado. A estação Clínicas também tem três obras do paulista Geraldo de Barros (1923-1998), as quais foram tema desta coluna em agosto de 2012.

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Texto de Everaldo Fioravante publicado em 25/02/2014 no jornal ‘Metrô News’.

Foto: Nario Barbosa

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