Ato de aproveitar a arte com prazer

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Obra de Fernando Lemos na estação Brigadeiro

 

No dicionário Houaiss consta que a palavra ‘fruição’ significa “ato, processo ou efeito de fruir”, “ato de aproveitar satisfatória e prazerosamente alguma coisa”. ‘Fruir’ é “desfrutar”. O termo é utilizado também em artes plásticas, justamente com esses sentidos. Esse é o tema de hoje de ‘Arte na Linha’. Na primeira versão do livro “Arte no Metrô”, de 1994, a fruição é muito bem explicada por Radha Abramo, professora, historiadora, museóloga e crítica de arte que durante muitos anos foi uma espécie de curadora do projeto de formação do acervo de arte do Metrô.

“Para os gregos, a pausa, advinda do êxtase diante de uma obra de arte promoveria o estado de contemplação do fruidor. Este seria o instante da descoberta, parada e retenção de respiração por segundos. Medindo pela percepção dá-se o conhecimento sensível, empatia, identificação com a obra de arte. Contudo, hoje, o nível perceptível dos indivíduos ampliou-se porque treinados gradativamente à velocidade e à intersecção das imagens cinéticas, da TV e do Cinema. Não se perdeu e nem se substituiu o estado de contemplação, acrescentou-se a ela a percepção fragmentada oriunda da aceleração, da multicaptação da obra de arte e do seu entorno”, escreveu Radha.

Ela também afirmou: “O fruidor não para diante do painel do metrô; movimentando-se no percurso convencional que o leva ao trem ele vai acumulando formas, cores e linhas que depois se arranjam mentalmente em correspondência à obra vista. Com esta atitude ele soma ao anterior prazer de admirar concretamente a obra o prazer maior de recriá-la abstratamente na memória”.

“No Metrô de São Paulo há obras à disposição de ambas as percepções. Em locais de movimentação desafogada encontram-se peças exigentes de pausa, da contemplação pura e simples. Em outros, de trânsito mais acirrado, estão obras concebidas já a partir da percepção fragmentada como as de Cícero Dias, Fernando Lemos, Tomie Ohtake, Renina Katz, Odiléa Toscano, Maurício Nogueira Lima e Antonio Peticov. Todavia, as de Aguilar e Cláudio Tozzi são perceptíveis aos poucos, tomam forma quando o trem para na estação. As obras de Mário Gruber, de Glauco Pinto de Moraes e de Lygia Reinach residem em espaços de menos pressa, convidam a uma breve e fugaz parada. Roubam o instante do êxtase do usuário do Metrô”, completou Radha.

A fruição, diretamente relacionada à identificação do espectador com as obras, é portanto subjetiva, depende de como cada um aprecia determinado trabalho de arte. Nos subterrâneos do Metrô paulistano há cerca de 100 obras: são 100 diferentes chances para fruir.

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Texto de Everaldo Fioravante publicado em 02/01/2013 no jornal ‘Metrô News’.

Foto: Everaldo Fioravante

4 Comentários

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4 Respostas para “Ato de aproveitar a arte com prazer

  1. Daniela Dias

    Sempre que leio os seus textos tenho vontade de ir ao metrô só para fruir as obras da forma como você as descreve.
    Ainda bem que decidiu criar o blog.
    Parabéns!

  2. Cássio Gomes Neves

    Everaldo Fioravante, menino de ouro. Muito bom lê-lo. Muito bom relê-lo. E não deixe sua redação se limitar à quantidade de obras expostas no metrô. Merecemos muito mais do que 37 textos.Parabéns pelo blog!

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